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LeadXone Civilizações antigas comparadas
Civilizações do Mediterrâneo

Cartago

Cidade fundada por colonos fenícios no golfo de Túnis que se tornou o centro de uma rede de portos, territórios agrícolas e rotas marítimas no Mediterrâneo ocidental, conhecida hoje sobretudo pela arqueologia e por relatos escritos por seus adversários.

814 a.C. – 146 a.C. África República oligárquica também: Qart-Hadasht, Cartago púnica e púnicos
Composição ilustrativa com enseada de porto circular, cascos de navios encostados e muralha de pedra clara sob luz de fim de tarde, evocando a Cartago púnica.
Composição ilustrativa produzida para o acervo. Não reproduz um sítio ou objeto específico.

Dados rápidos

Período aproximado
814 a.C. – 146 a.C.
Núcleo territorial
Península no golfo de Túnis, no litoral norte da África
Extensão estimada no auge
≈ 300.000 km²
População estimada
entre 100 e 400 mil habitantes na cidade no século III a.C., faixa larga por depender da área murada considerada e da densidade adotada no cálculo
Escrita
Variante púnica do alfabeto fenício, em estelas e inscrições votivas

Território e cronologia

Período histórico

814 a.C. a 146 a.C., com datação arqueológica algo posterior

A tradição literária grega e romana fixa a fundação em 814 a.C., cálculo transmitido por autores muito posteriores ao evento. Os materiais mais antigos recuperados no sítio, sobretudo cerâmica importada, situam o assentamento no fim do século IX ou no início do VIII a.C., diferença de algumas décadas que segue em debate entre especialistas. O intervalo adotado aqui vai dessa fundação até a destruição pelos exércitos romanos em 146 a.C., embora o local tenha sido reocupado como colônia romana no século seguinte, com camadas que dificultam o acesso aos níveis púnicos.

Números aproximados: reconstituições variam conforme o critério e a fonte.

Localização

Península no golfo de Túnis, no litoral norte da África

A cidade ocupava uma península no golfo de Túnis, entre o mar aberto e o lago de Túnis, com colinas que abrigavam o bairro alto de Birsa e uma faixa costeira onde funcionavam os portos. A posição, a meio caminho entre o Levante e o estreito de Gibraltar e próxima do canal que separa a Sicília da África, favorecia a escala de embarcações que cruzavam o Mediterrâneo no sentido leste-oeste. O interior imediato, com o vale do rio Medjerda e a península do cabo Bom, oferecia terras agrícolas que a cidade passou a explorar de forma intensiva.

Extensão territorial aproximada

Cerca de 300 mil km² somando domínios de fases distintas

A cifra de aproximadamente 300 mil quilômetros quadrados reúne áreas controladas em momentos diferentes: o território agrícola do norte da África, o oeste da Sicília, a Sardenha, as Baleares e as possessões ibéricas organizadas no século III a.C. Esses domínios nunca existiram todos ao mesmo tempo nem sob um regime administrativo único, já que alguns eram territórios tributários, outros cidades aliadas ou entrepostos com guarnição. Qualquer número, portanto, é aproximação dependente do recorte cronológico adotado.

Números aproximados: reconstituições variam conforme o critério e a fonte.

Principais cidades

Cartago, Útica, Hadrumeto, Motia e a base bárcida na Ibéria

Além da própria Cartago, a rede púnica incluía Útica, fundação fenícia anterior e vizinha, Hadrumeto e Léptis, no litoral africano, Motia e Solunto, na Sicília ocidental, e Nora e Tharros, na Sardenha. Na Península Ibérica, Cartago Nova, hoje Cartagena, foi estabelecida pela família Barca no fim do século III a.C. como base militar e centro de exploração de minas de prata. As estimativas de população para a capital variam muito, entre algo próximo de cem mil e valores da ordem de quatrocentos mil habitantes, conforme a área murada considerada.

Números aproximados: reconstituições variam conforme o critério e a fonte.

Poder e sociedade

Forma de governo

Dois sufetas anuais, conselho de anciãos e tribunal dos cento e quatro

O governo era exercido por dois sufetas eleitos a cada ano, magistrados com funções civis e judiciais, apoiados por um conselho de anciãos e por comissões permanentes que preparavam as decisões. Um tribunal de cento e quatro membros julgava generais e altos funcionários, o que submetia o comando militar a controle político severo, e a assembleia de cidadãos intervinha quando sufetas e conselho divergiam. Boa parte do que se sabe vem de uma descrição feita por Aristóteles, escrita de fora e com finalidade comparativa, e de menções romanas, o que impõe cautela quanto ao funcionamento cotidiano dessas instituições.

Organização social

Elites de armadores e proprietários sobre camponeses e tributários líbios

No topo situavam-se famílias que combinavam propriedade rural, participação no comércio marítimo e acesso às magistraturas, e a repetição de certos nomes nas fontes sugere circulação restrita dos cargos. Abaixo delas havia artesãos, marinheiros, pequenos comerciantes e camponeses, além de pessoas escravizadas empregadas em oficinas, no remo, no campo e no serviço doméstico. As populações líbias do interior pagavam tributo pesado em produtos agrícolas e forneciam recrutas, condição que provocou revoltas registradas nas fontes antigas, inclusive durante o conflito conhecido como guerra dos mercenários, entre 241 e 238 a.C.

Organização militar

Frota permanente e exércitos de contingentes recrutados e aliados

O poder militar apoiava-se na marinha, com frotas que as fontes descrevem em algumas centenas de embarcações a remo, e em exércitos formados por contingentes líbios, númidas, ibéricos, celtas, gregos e itálicos, contratados ou fornecidos por acordo e comandados por generais cartagineses. Esse arranjo dava flexibilidade e reduzia o custo humano para a população da cidade, mas dependia de pagamento regular, cuja interrupção provocou a revolta de 241 a.C. Na segunda guerra púnica, Aníbal conduziu uma campanha de anos em território itálico, com a travessia dos Alpes em 218 a.C. e a vitória de Canas em 216 a.C.

Números aproximados: reconstituições variam conforme o critério e a fonte.

Economia e subsistência

Economia

Agricultura de exportação, redistribuição portuária e prata ibérica

A economia combinava produção agrícola voltada ao mercado no território africano, redistribuição de mercadorias entre o Mediterrâneo oriental e o ocidental e exploração mineral, sobretudo de prata no sudeste da Península Ibérica. Cartago cunhou moeda relativamente tarde, no fim do século V a.C., em contexto de pagamento de tropas empregadas na Sicília, e emitiu peças em ouro, eletro, prata e bronze. Acordos com comunidades vizinhas e tratados com Roma, cujo teor Políbio afirma ter consultado em documentos antigos, delimitavam áreas de navegação e de troca.

Agricultura

Olival, vinha, cereal e pomar no cabo Bom, com o tratado de Magão

A planície do vale do Medjerda e a região do cabo Bom sustentavam olivais, vinhedos, cereais, romãs e figueiras em propriedades organizadas para o excedente, com trabalho escravizado e entrega tributária das comunidades submetidas. Um tratado agronômico atribuído a Magão, em vinte e oito livros, era valorizado a ponto de o senado romano determinar sua tradução após a destruição da cidade; o texto se perdeu e hoje é conhecido apenas por citações em autores latinos como Varrão, Columela e Plínio. Cisternas e sistemas de armazenamento de água encontrados em escavações indicam adaptação à irregularidade das chuvas.

Comércio

Rede de portos púnicos e viagens atlânticas de Hanão e Himilco

Cartago articulou entrepostos e cidades aliadas do Levante ao Atlântico, movimentando metais, tecido tingido de púrpura, cerâmica, peixe salgado, marfim e produtos agrícolas, com selos, pesos e ânforas que a arqueologia usa para mapear circuitos. Relatos antigos descrevem a viagem de Hanão ao longo da costa africana, preservada em uma versão grega de leitura difícil, e a de Himilco rumo ao norte europeu, conhecida apenas por menção muito posterior. Heródoto registra ainda uma forma de troca silenciosa praticada por púnicos em costa africana, testemunho indireto e de valor discutido.

Cultura, crença e saber

Sistema de escrita

Variante púnica do alfabeto fenício, em estelas e inscrições votivas

A escrita púnica é uma variante do alfabeto consonantal fenício, com formas cursivas próprias, documentada em milhares de inscrições votivas e funerárias, em pesos, moedas e selos. A perda quase completa da literatura cartaginesa decorre da destruição de 146 a.C. e do desaparecimento dos suportes perecíveis, restando de textos longos apenas o que autores gregos e latinos citaram ou traduziram. Uma passagem em púnico transcrita numa comédia de Plauto e inscrições bilíngues encontradas em Malta e na Sardenha estiveram entre os apoios para a decifração da língua no século XVIII.

Religião

Baal Hamon e Tanit, com o debate sobre o tofete ainda em aberto

As divindades principais atestadas em inscrições são Baal Hamon e Tanit, ao lado de Melkart, herdado de Tiro, e de Eshmun, com sacerdócios organizados e tarifas de sacrifício gravadas em pedra. Recintos a céu aberto chamados tofetes, encontrados em Cartago e em outros sítios púnicos, contêm milhares de urnas com restos cremados de recém-nascidos e de animais jovens sob estelas votivas. Autores gregos e romanos descreveram esses depósitos como sacrifício de crianças; parte dos pesquisadores considera a leitura sustentada pela análise óssea e epigráfica, enquanto outra parte defende tratar-se de cemitério para mortes perinatais, e o debate segue sem consenso.

Arte

Estelas votivas, máscaras de terracota, ourivesaria e vidro sobre núcleo

A produção púnica combina repertórios fenícios, egípcios, gregos e locais em estelas votivas com símbolos abstratos, máscaras e figurinhas de terracota, amuletos, joias de ouro granulado e pequenos recipientes de vidro colorido feitos sobre núcleo de areia. Sarcófagos antropoides encontrados em necrópoles de Cartago mostram a incorporação de modelos gregos na modelagem de rostos e vestes. A avaliação dessa produção foi por muito tempo prejudicada por comparações que a mediam pelo padrão grego, enfoque que pesquisas recentes substituem pelo estudo de suas funções rituais e de suas cadeias de produção.

Conhecimento científico

Saber náutico, agronomia escrita e descrição de costas atlânticas

O que se conhece do saber cartaginês chegou por vias indiretas: a agronomia sistematizada por Magão, a navegação de altura apoiada em leitura de astros e correntes, e descrições de litorais reunidas em relatos de viagem. Não sobreviveram tratados matemáticos ou astronômicos púnicos, o que não autoriza concluir pela ausência dessas práticas, apenas pela perda dos registros. A epigrafia mostra contabilidade de templo detalhada, com tarifas e proporções, e a análise laboratorial de metais e pigmentos revela domínio de ligas, do tingimento com múrex e da produção de vidro colorido.

Construção e técnica

Arquitetura

Cóton circular, muralha do istmo e quarteirões altos de Birsa

O conjunto portuário compreendia uma bacia comercial retangular e uma bacia militar circular, o cóton, com ilha central e casas de navios para abrigar embarcações fora d'água, estrutura confirmada por escavações no século XX. As muralhas terrestres, descritas nas fontes como espessas e dotadas de casamatas, protegiam o istmo, e o bairro de Birsa preserva quarteirões regulares com residências de vários pavimentos, cisternas e pisos de argamassa com fragmentos de cerâmica. Os monumentos púnicos foram em grande parte arrasados e recobertos pela cidade romana posterior.

Tecnologia

Montagem naval com peças marcadas e hidráulica urbana de cisternas

Um navio de guerra púnico recuperado perto de Marsala, na Sicília, apresenta letras e marcas nas peças de madeira, indício de montagem a partir de componentes preparados de antemão, prática compatível com relatos antigos sobre a rapidez de reposição de frotas. A cidade dispunha de grandes cisternas, drenagem e prensas de azeite; no campo, técnicas de plantio, enxertia e conservação de frutos descritas no tratado de Magão circularam depois entre agrônomos romanos. O emprego militar de elefantes norte-africanos, adestrados para o combate, exigiu instalações próprias junto às muralhas.

Realizações

Rede portuária de longo alcance, agronomia escrita e engenharia naval

Entre os feitos documentados estão a manutenção, por séculos, de uma rede de portos e acordos que ligou o Levante ao Atlântico, a construção do porto militar circular com capacidade para abrigar e reparar dezenas de navios, e a montagem naval a partir de peças preparadas em série. A agronomia reunida por Magão foi considerada útil o bastante para ser traduzida por decisão do senado romano depois da guerra. As viagens de exploração ao longo da costa africana e rumo ao norte da Europa ampliaram o conhecimento antigo sobre litorais situados fora do Mediterrâneo.

Trajetória posterior

Declínio

Três guerras contra Roma, indenizações pesadas e arrasamento da cidade

A primeira guerra púnica, entre 264 e 241 a.C., custou a Sicília e uma indenização pesada; a segunda, entre 218 e 201 a.C., começou com vitórias de Aníbal na Itália e terminou com a derrota em Zama, a perda das possessões ibéricas, a limitação da frota e novo pagamento a Roma. Reduzida a um território pequeno, mas com economia recuperada, a cidade foi atacada em uma terceira guerra e destruída em 146 a.C., com a população sobrevivente escravizada. A notícia de que os campos teriam sido cobertos de sal não aparece em nenhuma fonte antiga e é acréscimo de autores modernos.

Influência histórica

Permanência púnica sob Roma e revisão arqueológica de uma imagem herdada

A língua e os cultos púnicos continuaram em uso no norte da África por séculos depois de 146 a.C., e a colônia romana refundada no mesmo local tornou-se uma das maiores cidades do império. O relato escrito que chegou até hoje provém quase inteiramente de autores gregos e romanos, muitos deles ligados a estados que estiveram em guerra com Cartago, o que produziu uma imagem seletiva, centrada em crueldade e ganância, repetida por muito tempo. Escavações sistemáticas desde o século XIX e, em especial, a campanha internacional coordenada pela UNESCO a partir dos anos 1970 reequilibraram esse quadro com evidência material.

Fontes

Referências consultadas na redação e na revisão desta ficha. A leitura cruzada é descrita em fontes e metodologia.

  • Archaeological Site of Carthage UNESCO — Patrimônio Mundial · Documentação de patrimônio Consultar a referência
  • Coleções púnicas: estelas, terracotas, ourivesaria e sarcófagos Museu Nacional de Cartago · Acervo de museu
  • Phoenician and Punic material — acervo e pesquisa de coleção The British Museum · Acervo de museu Consultar a referência
  • Antiguidades do Oriente Próximo — coleções fenícias e púnicas Musée du Louvre · Acervo de museu
  • The Cambridge Ancient History, volumes VI a VIII Cambridge University Press · Obra acadêmica de referência

Ficha revisada em 8 de setembro de 2026.

Compare Cartago com outra civilização

A comparação usa a mesma pauta de 21 características e sinaliza onde as duas trajetórias se afastam.

Escolher a segunda civilização