Grécia Antiga
Conjunto de cidades-estado independentes espalhadas pelo Egeu e por assentamentos de todo o Mediterrâneo, unidas por língua, cultos e escrita comuns, mas raramente por um governo…
Comparação montada a partir do acervo. As duas fichas seguem a mesma pauta de 21 características, preenchidas e revisadas separadamente.
Conjunto de cidades-estado independentes espalhadas pelo Egeu e por assentamentos de todo o Mediterrâneo, unidas por língua, cultos e escrita comuns, mas raramente por um governo…
Cidade fundada por colonos fenícios no golfo de Túnis que se tornou o centro de uma rede de portos, territórios agrícolas e rotas marítimas no Mediterrâneo ocidental, conhecida…
Grécia: Europa
Cartago: África
Classificações distintasGrécia: Primeiro milênio a.C.
Cartago: Primeiro milênio a.C.
Classificações próximasGrécia: Cidades-estado autônomas
Cartago: República oligárquica
Classificações distintasGrécia: cerca de 130.000 km²
Cartago: cerca de 300.000 km²
Classificações distintasOs dois recortes convivem por aproximadamente 654 anos, o que permite falar de contemporaneidade parcial.
Recortes sobrepostosc. 800 a.C. a 146 a.C., do período arcaico ao fim do helenístico
A convenção historiográfica divide o período em arcaico, a partir de cerca de 800 a.C., clássico, entre as guerras persas e a morte de Alexandre em 323 a.C., e helenístico, encerrado ao longo dos séculos II e I a.C. O marco inicial é aproximado e apoia-se na retomada do uso da escrita, no crescimento demográfico e na formação das primeiras poleis, processos que não avançaram no mesmo ritmo em todas as regiões. O ano de 146 a.C., adotado aqui como fecho, corresponde à derrota da Liga Aqueia e à submissão do continente a Roma, e não ao desaparecimento das instituições cívicas locais.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.814 a.C. a 146 a.C., com datação arqueológica algo posterior
A tradição literária grega e romana fixa a fundação em 814 a.C., cálculo transmitido por autores muito posteriores ao evento. Os materiais mais antigos recuperados no sítio, sobretudo cerâmica importada, situam o assentamento no fim do século IX ou no início do VIII a.C., diferença de algumas décadas que segue em debate entre especialistas. O intervalo adotado aqui vai dessa fundação até a destruição pelos exércitos romanos em 146 a.C., embora o local tenha sido reocupado como colônia romana no século seguinte, com camadas que dificultam o acesso aos níveis púnicos.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Sul da península balcânica, ilhas do Egeu e costa da Ásia Menor
O núcleo do mundo grego abrangia a porção meridional da península balcânica, as ilhas do mar Egeu e a faixa litorânea ocidental da Ásia Menor, região conhecida como Jônia. O relevo montanhoso e o recorte do litoral em vales e enseadas acompanharam a existência de comunidades políticas pequenas e autônomas, mas essa correspondência não deve ser lida como causa suficiente: vizinhas em terreno semelhante formaram ligas e federações em vários momentos. Desde o século VIII a.C., assentamentos de população grega estenderam-se do mar Negro ao sul da Itália, à Sicília, ao litoral do sul da França e a pontos da Península Ibérica.
Península no golfo de Túnis, no litoral norte da África
A cidade ocupava uma península no golfo de Túnis, entre o mar aberto e o lago de Túnis, com colinas que abrigavam o bairro alto de Birsa e uma faixa costeira onde funcionavam os portos. A posição, a meio caminho entre o Levante e o estreito de Gibraltar e próxima do canal que separa a Sicília da África, favorecia a escala de embarcações que cruzavam o Mediterrâneo no sentido leste-oeste. O interior imediato, com o vale do rio Medjerda e a península do cabo Bom, oferecia terras agrícolas que a cidade passou a explorar de forma intensiva.
Cerca de 130 mil km² no núcleo egeu, sem estado unificado
A cifra de aproximadamente 130 mil quilômetros quadrados descreve o núcleo continental e insular do Egeu, e não um território administrado por um poder único. As poleis eram estados independentes, cada uma com território próprio que raramente passava de algumas centenas ou poucos milhares de quilômetros quadrados, e o espaço grego resultava da soma dessas unidades. Incluídos os assentamentos coloniais, a dispersão vai do mar Negro à Península Ibérica, o que torna qualquer número de área uma escolha de recorte, e não uma medida de soberania.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Cerca de 300 mil km² somando domínios de fases distintas
A cifra de aproximadamente 300 mil quilômetros quadrados reúne áreas controladas em momentos diferentes: o território agrícola do norte da África, o oeste da Sicília, a Sardenha, as Baleares e as possessões ibéricas organizadas no século III a.C. Esses domínios nunca existiram todos ao mesmo tempo nem sob um regime administrativo único, já que alguns eram territórios tributários, outros cidades aliadas ou entrepostos com guarnição. Qualquer número, portanto, é aproximação dependente do recorte cronológico adotado.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Atenas, Esparta, Corinto, Tebas, Mileto e a siciliana Siracusa
Atenas concentrou a maior população do mundo egeu, com estimativas entre 200 e 300 mil habitantes na Ática do século V a.C., contando pessoas escravizadas e residentes estrangeiros. Esparta organizava-se como um conjunto de aldeias sem muralhas, Corinto controlava o istmo e o tráfego entre dois mares, Tebas liderava a confederação beócia e Mileto foi um dos polos mais ativos da costa jônica. Fora do Egeu, Siracusa, estabelecida por colonos vindos de Corinto na Sicília, alcançou escala comparável à das maiores cidades continentais.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Cartago, Útica, Hadrumeto, Motia e a base bárcida na Ibéria
Além da própria Cartago, a rede púnica incluía Útica, fundação fenícia anterior e vizinha, Hadrumeto e Léptis, no litoral africano, Motia e Solunto, na Sicília ocidental, e Nora e Tharros, na Sardenha. Na Península Ibérica, Cartago Nova, hoje Cartagena, foi estabelecida pela família Barca no fim do século III a.C. como base militar e centro de exploração de minas de prata. As estimativas de população para a capital variam muito, entre algo próximo de cem mil e valores da ordem de quatrocentos mil habitantes, conforme a área murada considerada.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Poleis autônomas, democracia em Atenas e realeza dupla em Esparta
A unidade política básica era a polis, comunidade de cidadãos formada muitas vezes por sinecismo, a reunião de aldeias em torno de um centro urbano e de cultos comuns. Os regimes variavam entre oligarquias de proprietários, tiranias, realezas e democracias, e a mesma cidade podia trocar de arranjo várias vezes em uma geração. Em Atenas, a partir das reformas do fim do século VI a.C., a assembleia de cidadãos decidia leis e guerra e a maioria dos cargos era preenchida por sorteio; o corpo cívico excluía mulheres, estrangeiros residentes e pessoas escravizadas, de modo que a participação alcançava uma fração minoritária dos habitantes. Esparta combinava dois reis simultâneos, um conselho de anciãos e uma assembleia de poder limitado.
Dois sufetas anuais, conselho de anciãos e tribunal dos cento e quatro
O governo era exercido por dois sufetas eleitos a cada ano, magistrados com funções civis e judiciais, apoiados por um conselho de anciãos e por comissões permanentes que preparavam as decisões. Um tribunal de cento e quatro membros julgava generais e altos funcionários, o que submetia o comando militar a controle político severo, e a assembleia de cidadãos intervinha quando sufetas e conselho divergiam. Boa parte do que se sabe vem de uma descrição feita por Aristóteles, escrita de fora e com finalidade comparativa, e de menções romanas, o que impõe cautela quanto ao funcionamento cotidiano dessas instituições.
Cidadãos, metecos e pessoas escravizadas, com hilotas em Esparta
O corpo social das poleis distinguia cidadãos com direitos políticos, estrangeiros residentes — os metecos, que pagavam tributo e não votavam — e pessoas escravizadas, empregadas em casas, oficinas, campos e minas. As mulheres de famílias cidadãs transmitiam a condição cívica aos filhos e participavam de cultos e festivais, mas não votavam nem exerciam magistraturas. Em Esparta o arranjo era outro: os espartíatas viviam da produção dos hilotas, população submetida coletivamente e vinculada à terra, enquanto os periecos ocupavam posição intermediária, com autonomia local e sem direitos políticos plenos.
Elites de armadores e proprietários sobre camponeses e tributários líbios
No topo situavam-se famílias que combinavam propriedade rural, participação no comércio marítimo e acesso às magistraturas, e a repetição de certos nomes nas fontes sugere circulação restrita dos cargos. Abaixo delas havia artesãos, marinheiros, pequenos comerciantes e camponeses, além de pessoas escravizadas empregadas em oficinas, no remo, no campo e no serviço doméstico. As populações líbias do interior pagavam tributo pesado em produtos agrícolas e forneciam recrutas, condição que provocou revoltas registradas nas fontes antigas, inclusive durante o conflito conhecido como guerra dos mercenários, entre 241 e 238 a.C.
Falange de hoplitas, frota de trirremes e falange macedônica
O combate terrestre apoiava-se na falange de hoplitas, cidadãos que custeavam o próprio equipamento de escudo redondo, lança, elmo e couraça e lutavam em formação cerrada, o que vinculava a função militar à posse de bens. Atenas desenvolveu poder naval a partir de 480 a.C., com uma frota que chegou a algumas centenas de trirremes, tripuladas em boa parte por cidadãos de menor renda. Esparta submetia os filhos de cidadãos a treinamento coletivo prolongado e mantinha uma infantaria de reputação elevada. No século IV a.C., Filipe II reorganizou o exército macedônio em torno da sarissa, lança de cerca de cinco metros, combinada a cavalaria de choque e a máquinas de cerco.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Frota permanente e exércitos de contingentes recrutados e aliados
O poder militar apoiava-se na marinha, com frotas que as fontes descrevem em algumas centenas de embarcações a remo, e em exércitos formados por contingentes líbios, númidas, ibéricos, celtas, gregos e itálicos, contratados ou fornecidos por acordo e comandados por generais cartagineses. Esse arranjo dava flexibilidade e reduzia o custo humano para a população da cidade, mas dependia de pagamento regular, cuja interrupção provocou a revolta de 241 a.C. Na segunda guerra púnica, Aníbal conduziu uma campanha de anos em território itálico, com a travessia dos Alpes em 218 a.C. e a vitória de Canas em 216 a.C.
Valores aproximados, reconstituídos a partir de evidências parciais.Propriedades modestas, oficinas urbanas, prata de Láurio e moeda
A base econômica combinava propriedades agrícolas de porte modesto, oficinas urbanas de cerâmica, metal e tecido, e um setor de trocas marítimas de longa distância. A cunhagem em prata e eletro difundiu-se a partir do século VI a.C., e cada cidade emitia peças próprias, o que exigia cambistas e criou padrões de peso concorrentes. As minas de prata de Láurio, exploradas com trabalho escravizado em condições severas, financiaram a frota ateniense, e o tributo dos aliados da Liga de Delos passou a cobrir parte das despesas públicas de Atenas no século V a.C.
Agricultura de exportação, redistribuição portuária e prata ibérica
A economia combinava produção agrícola voltada ao mercado no território africano, redistribuição de mercadorias entre o Mediterrâneo oriental e o ocidental e exploração mineral, sobretudo de prata no sudeste da Península Ibérica. Cartago cunhou moeda relativamente tarde, no fim do século V a.C., em contexto de pagamento de tropas empregadas na Sicília, e emitiu peças em ouro, eletro, prata e bronze. Acordos com comunidades vizinhas e tratados com Roma, cujo teor Políbio afirma ter consultado em documentos antigos, delimitavam áreas de navegação e de troca.
Cereal, oliveira e videira em solos rasos e chuva de inverno
O calendário agrícola girava em torno da cevada e do trigo semeados no outono, da azeitona colhida no fim do ano e da uva vindimada no verão, complementados por leguminosas, figo e criação de cabras e ovelhas. Solos rasos e chuvas irregulares produziam colheitas instáveis, e várias cidades dependiam de cereal importado, caso de Atenas, abastecida por grão do mar Negro e do Egito. Azeite e vinho, ao contrário, formavam excedente exportável, transportado em ânforas cujos tipos permitem hoje reconstituir rotas e volumes de troca.
Olival, vinha, cereal e pomar no cabo Bom, com o tratado de Magão
A planície do vale do Medjerda e a região do cabo Bom sustentavam olivais, vinhedos, cereais, romãs e figueiras em propriedades organizadas para o excedente, com trabalho escravizado e entrega tributária das comunidades submetidas. Um tratado agronômico atribuído a Magão, em vinte e oito livros, era valorizado a ponto de o senado romano determinar sua tradução após a destruição da cidade; o texto se perdeu e hoje é conhecido apenas por citações em autores latinos como Varrão, Columela e Plínio. Cisternas e sistemas de armazenamento de água encontrados em escavações indicam adaptação à irregularidade das chuvas.
Cabotagem em ânforas, entrepostos e empréstimos marítimos
O transporte de cabotagem, praticado sobretudo entre a primavera e o outono, movia cereal, azeite, vinho, cerâmica, madeira, metais e pessoas escravizadas entre portos do Egeu, do mar Negro, do Levante, do norte da África e do Ocidente. Entrepostos como Náucratis, no delta do Nilo, e Emporion, na costa ibérica, punham mercadores gregos em contato regular com egípcios, fenícios, etruscos e populações locais. Empréstimos marítimos de juro alto e com cláusulas de risco, documentados em discursos judiciais atenienses, financiavam viagens e distribuíam perdas entre credores.
Rede de portos púnicos e viagens atlânticas de Hanão e Himilco
Cartago articulou entrepostos e cidades aliadas do Levante ao Atlântico, movimentando metais, tecido tingido de púrpura, cerâmica, peixe salgado, marfim e produtos agrícolas, com selos, pesos e ânforas que a arqueologia usa para mapear circuitos. Relatos antigos descrevem a viagem de Hanão ao longo da costa africana, preservada em uma versão grega de leitura difícil, e a de Himilco rumo ao norte europeu, conhecida apenas por menção muito posterior. Heródoto registra ainda uma forma de troca silenciosa praticada por púnicos em costa africana, testemunho indireto e de valor discutido.
Alfabeto derivado do fenício, com sinais próprios para vogais
Por volta do século VIII a.C., comunidades gregas adaptaram o alfabeto consonantal fenício e reaproveitaram sinais sem correspondência sonora no grego para notar vogais, resultando em um sistema de cerca de vinte e quatro letras. Variantes locais circularam por décadas até a adoção do padrão jônico em Atenas, em 403 a.C. A escrita aparece em vasos, inscrições públicas em pedra, listas de magistrados e tabuinhas de maldição, e o suporte usual para textos longos era o rolo de papiro importado do Egito. Um sistema silábico anterior, o linear B, registrara uma forma arcaica de grego nos palácios micênicos e deixou de ser usado com o colapso desses centros.
Variante púnica do alfabeto fenício, em estelas e inscrições votivas
A escrita púnica é uma variante do alfabeto consonantal fenício, com formas cursivas próprias, documentada em milhares de inscrições votivas e funerárias, em pesos, moedas e selos. A perda quase completa da literatura cartaginesa decorre da destruição de 146 a.C. e do desaparecimento dos suportes perecíveis, restando de textos longos apenas o que autores gregos e latinos citaram ou traduziram. Uma passagem em púnico transcrita numa comédia de Plauto e inscrições bilíngues encontradas em Malta e na Sardenha estiveram entre os apoios para a decifração da língua no século XVIII.
Politeísmo cívico, santuários pan-helênicos e cultos de mistério
Cada cidade mantinha cultos próprios a divindades de um panteão comum — Zeus, Atena, Apolo, Deméter e Dioniso, entre outras —, com calendário de festivais, sacrifícios e procissões custeados por recursos públicos e por cidadãos ricos. Santuários frequentados por todo o mundo grego, como Olímpia, Delfos e Delos, reuniam competições, oráculos e oferendas de cidades rivais, funcionando como espaço de contato entre comunidades em conflito. Ao lado do culto cívico havia iniciações de acesso restrito, como os mistérios de Elêusis, e práticas domésticas e funerárias que raramente aparecem nos textos literários.
Baal Hamon e Tanit, com o debate sobre o tofete ainda em aberto
As divindades principais atestadas em inscrições são Baal Hamon e Tanit, ao lado de Melkart, herdado de Tiro, e de Eshmun, com sacerdócios organizados e tarifas de sacrifício gravadas em pedra. Recintos a céu aberto chamados tofetes, encontrados em Cartago e em outros sítios púnicos, contêm milhares de urnas com restos cremados de recém-nascidos e de animais jovens sob estelas votivas. Autores gregos e romanos descreveram esses depósitos como sacrifício de crianças; parte dos pesquisadores considera a leitura sustentada pela análise óssea e epigráfica, enquanto outra parte defende tratar-se de cemitério para mortes perinatais, e o debate segue sem consenso.
Escultura do arcaico ao helenístico, cerâmica figurada e cor perdida
A escultura passou dos kouroi e korai arcaicos, de postura frontal e simetria rígida, ao equilíbrio de peso e movimento do período clássico e, depois, à expressividade helenística, com obras conhecidas em larga medida por cópias romanas em mármore. A cerâmica ática, primeiro de figuras negras e depois de figuras vermelhas, oferece um repertório visual de mitos, banquetes, oficinas e cenas domésticas, além de assinaturas de oleiros e pintores. Estátuas e templos eram pintados em cores fortes, hoje quase totalmente perdidas, e a pintura de painel, muito elogiada na literatura antiga, sobreviveu apenas em descrições e ecos indiretos.
Estelas votivas, máscaras de terracota, ourivesaria e vidro sobre núcleo
A produção púnica combina repertórios fenícios, egípcios, gregos e locais em estelas votivas com símbolos abstratos, máscaras e figurinhas de terracota, amuletos, joias de ouro granulado e pequenos recipientes de vidro colorido feitos sobre núcleo de areia. Sarcófagos antropoides encontrados em necrópoles de Cartago mostram a incorporação de modelos gregos na modelagem de rostos e vestes. A avaliação dessa produção foi por muito tempo prejudicada por comparações que a mediam pelo padrão grego, enfoque que pesquisas recentes substituem pelo estudo de suas funções rituais e de suas cadeias de produção.
Filosofia natural, geometria dedutiva, medicina hipocrática e astronomia
A partir do século VI a.C., pensadores jônicos passaram a explicar fenômenos naturais por causas internas ao próprio mundo, linha que se desdobrou em investigações sobre matéria, movimento e classificação dos seres vivos. Os Elementos de Euclides, compilados em Alexandria por volta de 300 a.C., organizaram a geometria como sistema dedutivo a partir de definições e postulados, formato que estruturou o ensino matemático por séculos. O conjunto de textos atribuído a Hipócrates deslocou a explicação da doença para dieta, ambiente e desequilíbrios do corpo; Eratóstenes calculou a circunferência da Terra pela medida de sombras e Hiparco reuniu um catálogo estelar e identificou a precessão dos equinócios.
Saber náutico, agronomia escrita e descrição de costas atlânticas
O que se conhece do saber cartaginês chegou por vias indiretas: a agronomia sistematizada por Magão, a navegação de altura apoiada em leitura de astros e correntes, e descrições de litorais reunidas em relatos de viagem. Não sobreviveram tratados matemáticos ou astronômicos púnicos, o que não autoriza concluir pela ausência dessas práticas, apenas pela perda dos registros. A epigrafia mostra contabilidade de templo detalhada, com tarifas e proporções, e a análise laboratorial de metais e pigmentos revela domínio de ligas, do tingimento com múrex e da produção de vidro colorido.
Templo peristilo em pedra e as ordens dórica, jônica e coríntia
O templo grego consolidou uma planta retangular com cela interna e colunata externa, executada em calcário revestido de estuque ou em mármore, com telhado de duas águas e frontões esculpidos. As três ordens organizavam proporções, capitéis e entablamentos, e o Partenon, erguido na Acrópole de Atenas entre 447 e 432 a.C., é o exemplo mais estudado do refinamento dórico, com ajustes ópticos como a leve curvatura do embasamento. Além dos templos, as cidades investiam em teatros escavados em encostas, estádios, ágoras porticadas e muralhas, e no século V a.C. difundiu-se o traçado urbano ortogonal associado a Hipódamo de Mileto.
Cóton circular, muralha do istmo e quarteirões altos de Birsa
O conjunto portuário compreendia uma bacia comercial retangular e uma bacia militar circular, o cóton, com ilha central e casas de navios para abrigar embarcações fora d'água, estrutura confirmada por escavações no século XX. As muralhas terrestres, descritas nas fontes como espessas e dotadas de casamatas, protegiam o istmo, e o bairro de Birsa preserva quarteirões regulares com residências de vários pavimentos, cisternas e pisos de argamassa com fragmentos de cerâmica. Os monumentos púnicos foram em grande parte arrasados e recobertos pela cidade romana posterior.
Trirreme, guindastes de canteiro e engrenagens de Anticítera
A trirreme, embarcação a remo em três níveis com esporão de bronze, exigia estaleiros, casas de navios e tripulações treinadas de cerca de duzentos homens, e sua manutenção estruturou boa parte das finanças navais atenienses. Nos canteiros de obra, guindastes com cabrestante e polias, pinças de içamento e blocos com encaixes metálicos permitiam levantar peças de mármore de muitas toneladas com equipes reduzidas. Testemunhos antigos atribuem a Arquimedes o estudo da alavanca e do parafuso hidráulico, e o mecanismo de Anticítera, recuperado de um naufrágio, demonstra o uso de engrenagens de precisão para calcular posições astronômicas.
Montagem naval com peças marcadas e hidráulica urbana de cisternas
Um navio de guerra púnico recuperado perto de Marsala, na Sicília, apresenta letras e marcas nas peças de madeira, indício de montagem a partir de componentes preparados de antemão, prática compatível com relatos antigos sobre a rapidez de reposição de frotas. A cidade dispunha de grandes cisternas, drenagem e prensas de azeite; no campo, técnicas de plantio, enxertia e conservação de frutos descritas no tratado de Magão circularam depois entre agrônomos romanos. O emprego militar de elefantes norte-africanos, adestrados para o combate, exigiu instalações próprias junto às muralhas.
Teatro de festival, historiografia crítica e procedimentos de assembleia
Entre as realizações mais documentadas estão a tragédia e a comédia encenadas em festivais cívicos, com peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes preservadas em número reduzido diante do que se sabe ter existido. A narrativa histórica com discussão explícita de fontes, praticada por Heródoto e Tucídides, e a organização da geometria e da medicina em corpos sistemáticos de texto tiveram longa circulação posterior. No plano institucional, destacam-se os procedimentos de assembleia, o sorteio de cargos, a prestação de contas dos magistrados e o registro público de decisões em pedra.
Rede portuária de longo alcance, agronomia escrita e engenharia naval
Entre os feitos documentados estão a manutenção, por séculos, de uma rede de portos e acordos que ligou o Levante ao Atlântico, a construção do porto militar circular com capacidade para abrigar e reparar dezenas de navios, e a montagem naval a partir de peças preparadas em série. A agronomia reunida por Magão foi considerada útil o bastante para ser traduzida por decisão do senado romano depois da guerra. As viagens de exploração ao longo da costa africana e rumo ao norte da Europa ampliaram o conhecimento antigo sobre litorais situados fora do Mediterrâneo.
Desgaste bélico, hegemonia macedônica e anexação romana
A guerra do Peloponeso, entre 431 e 404 a.C., opôs por vinte e sete anos as alianças lideradas por Atenas e por Esparta, com epidemia na cidade sitiada, campanhas dispendiosas e mudanças de regime, e nenhuma cidade recuperou depois posição hegemônica estável. A vitória de Filipe II em Queroneia, em 338 a.C., submeteu as poleis à liderança macedônia, e a morte de Alexandre em 323 a.C. dividiu o território conquistado entre reinos governados por seus antigos oficiais. A intervenção romana nos conflitos entre esses reinos terminou com a derrota da Liga Aqueia e a destruição de Corinto em 146 a.C.
Três guerras contra Roma, indenizações pesadas e arrasamento da cidade
A primeira guerra púnica, entre 264 e 241 a.C., custou a Sicília e uma indenização pesada; a segunda, entre 218 e 201 a.C., começou com vitórias de Aníbal na Itália e terminou com a derrota em Zama, a perda das possessões ibéricas, a limitação da frota e novo pagamento a Roma. Reduzida a um território pequeno, mas com economia recuperada, a cidade foi atacada em uma terceira guerra e destruída em 146 a.C., com a população sobrevivente escravizada. A notícia de que os campos teriam sido cobertos de sal não aparece em nenhuma fonte antiga e é acréscimo de autores modernos.
Transmissão de textos por Roma, tradutores árabes e cópias medievais
Depois da anexação, a língua e a literatura gregas seguiram em uso no Mediterrâneo oriental e foram estudadas por autores latinos, o que garantiu a transmissão de obras filosóficas, médicas e matemáticas. Entre os séculos VIII e X, tradutores em Bagdá verteram para o árabe tratados de Euclides, Ptolomeu, Galeno e Aristóteles, comentados e ampliados por autores de língua árabe e persa; cópias bizantinas e traduções latinas medievais completaram o percurso até as universidades europeias. Vocabulário técnico, ordens arquitetônicas e formas dramáticas de origem grega seguem em uso, resultado dessa cadeia de cópia e tradução, e não de continuidade direta.
Permanência púnica sob Roma e revisão arqueológica de uma imagem herdada
A língua e os cultos púnicos continuaram em uso no norte da África por séculos depois de 146 a.C., e a colônia romana refundada no mesmo local tornou-se uma das maiores cidades do império. O relato escrito que chegou até hoje provém quase inteiramente de autores gregos e romanos, muitos deles ligados a estados que estiveram em guerra com Cartago, o que produziu uma imagem seletiva, centrada em crueldade e ganância, repetida por muito tempo. Escavações sistemáticas desde o século XIX e, em especial, a campanha internacional coordenada pela UNESCO a partir dos anos 1970 reequilibraram esse quadro com evidência material.
Esta combinação foi montada a partir das duas fichas e ainda não recebeu texto de contexto próprio. As comparações com introdução, contexto e considerações finais estão reunidas em comparações recomendadas.
As duas sociedades são tratadas quase sempre em sequência, como se uma fosse a continuação natural da outra. Lado a lado, aparecem diferenças estruturais que a expressão mundo…
Ler a comparação → Roma e CartagoDurante mais de um século as duas cidades disputaram o Mediterrâneo ocidental, e a comparação entre elas costuma ser feita com material desigual: quase tudo o que se escreveu…
Ler a comparação → Suméria e GréciaSeparadas por mais de dois milênios e por meio continente, as duas sociedades organizaram a vida política em cidades autônomas que competiam entre si e resistiram à unificação…
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